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Slow Blog da Tania

cronicas e artigos



 
 

O amor no masculino

 

Tania Regina

 

Quem sofre mais por amor, o homem ou a mulher?

 

Não dá para saber. As mulheres falam, não escamoteiam a própria dor, trocam confidências com quem quiser ouvir – da amiga de infância à pessoa que acabaram de conhecer no ponto de ônibus.

 

Já os homens... Eles são diferentes. Têm um milhão de amigos: amigos de bar, de futebol, de balada... Mas ninguém conhece ninguém. Um código – não escrito – proíbe confidências.

 

Talvez, no auge do desespero, o homem exponha sua humana fragilidade. Mesmo assim, não em palavras, e só depois de um grande porre, com direito a lágrimas e  xingamentos à amada em abundância.

 

Claro que nem todos os homens são assim. Cada vez mais, buscamos o SER humano que se perdeu no caminho. E, por conta dessa busca, alguns deles começam a reivindicar – falando!!! – o reconhecimento de suas almas. É passado o tempo do homem que só pensa em sexo, não quer compromisso, não quer dar e receber carinho...

 

Há pouco tempo, ouvi o seguinte alerta: “Bonzinho, mas homem. Compreensivo, mas homem...” O autor deste alerta (eu sei) é um novo homem, construindo o seu “h” maiúsculo, uma soma explícita de sensibilidade + instinto. Explícita porque sempre existiu, mas estava proibida – em mais um código oculto – de manifestar-se em público.

 

São poucos, por enquanto, os homens que têm coragem de se expor, de abrir o coração sem medo de ser o único apaixonado confesso da Terra. E este meu pensar, minhas palavras, são para estes poucos, porque o Dia da Mulher, 8 de março, sábado, é também o Dia destes homens. Homens que não se reconhecem em pesquisas e comentários generalistas sobre o sexo masculino. Homens que querem ser identificados como seres que integram a humanidade do século 21. Homens que estão comprometidos com a construção de um mundo melhor. Homens que, de verdade, não estão preocupados em saber quem ama mais. Mas em amar, mais e melhor.

 



Escrito por Tania Regina às 18h45
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O passado de presente

Sábado, 5 de abril, vivi um momento único ao reencontrar pessoas que fizeram parte da minha juventude. Nós acreditávamos que podíamos mudar o mundo - e podíamos mesmo, tanto que o fizemos. Mudamos o nosso mundo. Queríamos mais da profissão que havíamos abraçado e lutamos por isso. Vivíamos num mundo à parte. Trabalhávamos à noite, aos finais de semana, nas madrugadas... Um tempo de muitos amores e muitos amigos. Muitos casaram, namoraram sério, investiram numa amizade que ultrapassou o tempo.

Quando encontramos pessoas que não vemos há muito tempo, percebemos como a memória é traiçoeira. Como um grande arquivo, guardamos mais rostos que nomes, mais fatos que datas... Voltar é reviver, e ver reacender chamas e descobrir que você, de alguma forma, fez a diferença.

A riqueza daqueles anos é algo ímpar. Difícil de transformar em palavras. É sentimento.

Escrevo sobre a turma de revisores da Folha de S. Paulo, no meu caso, a turma que estava lá entre os anos de 1978 e 1982.

Nunca fui uma pessoa fácil - de gênio forte e posições radicais - me indispus com muita gente. Pura e simplesmente deixava de falar com as pessoas. Eu era assim... Que bom que o tempo passa, a gente amadurece. Sem entrar no meríto de quem tinha ou não tinha razão, hoje, passados 30 anos - de quando esse tempo começou para mim -, tenho consciência de que cada pessoa, a seu modo, ajudou a formar o eu de hoje, um eu legal, pleno, vibrante...

É tempo de agradecer a todos que passaram pela minha vida, um dia.  

 Tania

(escrito em 8 de abril de 2008)



Escrito por Tania Regina às 18h36
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Barack Hussein Obama, o presidente da América

Jóia

Barack Hussein Obama, o presidente negro dos Estados Unidos da América, o presidente da América. América do amor e do ódio. América que imitamos e condenamos. América da globalização. O que significa Barack Hussein Obama no poder? A resposta está no coração de cada americano, seja ele do norte ou do sul, branco, negro, amarelo, vermelho ou combinado de raças. Barack Hussein Obama fez ressurgir das cinzas os Estados Unidos da América.  Fez ressurgir no coração do mundo a esperança. Por ele, redescobriu-se a importância do voto. Político, Barack Hussein Obama foi o mestre de cerimônias da festa de cidadania vivida pelos norte-americanos e multiplicada no coração do mundo. 

 

Com os olhos voltados aos meus tempos de militância, lembro da reedição do símbolo americano do poder negro, do cabelo black Power, de Martin Luther King, Malcom-X. Quantos lutaram... Quantos morreram lutando. Para nós, negros do Brasil, exemplos de luta a serem seguidos. Mas não sei se em algum tempo, longe dos romances, poderíamos imaginar um negro na Casa Branca. Não. Barack Obama representa mais que um negro na Casa Branca. É a família Obama que assume o poder. É a família Obama que exemplifica na sua formação, na sua garra, na sua elegância, na sua inteligência, na sua história.

 

Meu coração está em festa. E sei que muitos corações militantes e não-militantes, do passado e do presente, estão em festa. Os americanos do norte chegaram lá. E nós, que sempre imitamos os americanos do norte, nos permitimos, agora, imaginar que chegaremos lá, também. Obama não é unanimidade nacional, é unanimidade mundial. O planeta está feliz com sua vitória. É um novo olhar sobre o Universo que habitamos. Ele se propõe arrumar a casa, de mãos dadas com todos que o elegeram. A tarefa não é pequena nem simples. Como lembrou em seu discurso são duas guerras, uma crise financeira e desmandos sem-fim de seu antecessor, que encontrou a América rica e a deixa  quase na miséria, que encontrou a ordem e a deixa no caos.

 

Que bênção um homem negro ter sido escolhido para colocar a América em ordem. Que a boa vontade que Barack Obama conseguiu inspirar no coração de muitos dirigentes das Américas do Sul e Central e da Europa, que a alegria queniana da África contamine as próximas decisões que terão de ser tomadas para que possamos viver em um mundo mais solidário, mais humano, mais feliz.

 

Escrito em novembro de 2008

 



Escrito por Tania Regina às 18h31
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Uma noite na Casa Branca

Ou o presidente negro dos Estados Unidos da América

Nunca entendi os corintianos. Me lembro de um dia, há muitos anos, que tomei um táxi e o motorista disse: "Eu sou campeão", referindo-se à vitória do time de futebol paulista após mais de 20 anos sem conquistar títulos em campeonatos. Hoje entendi o que ele quis dizer, vivenciei o sentimento daquele trabalhador. Ele se sentiu campeão da mesma forma que eu, noite passada - de 20 para 21 de janeiro de 2009 - dormi na Casa Branca. Ainda não sei se foi sonho ou imaginação. Nunca morri de amores pelos Estados Unidos da América, mas sempre admirei a garra e as conquistas daquele povo negro. Noite passada, entretanto, me embalei no sonho de Michele Obama, a primeira dama americana, e compartilhei a conquista de seu marido Barack. Me vi pensando no futuro de Malia e Sasha, as filhas do primeiro presidente negro americano. Me percebi mais que orgulhosa daquela família. Sou eu uem está lá. Com todos os desafios a serem enfrentados, sou eu quem chegou lá. Barack tem a responsabilidade de cuidar, primeiro, do povo americano. Mas, ao propor-se o desafio de ser presidente dos Estados Unidos da América, ele transformou algma coisa dentro de mim, aqui no Brasil. É um sentimento novo, que ainda não consigo transformar em palavras exatas. É uma emoção que vai além do sentir-se campeã porque um time de futebol ganhou. É um sentimento de possibilidade. "We can" - foi seu slogan de campanha. E, sim, nós - todos e cada um - podemos fazer a diferença porque um homem, uma família negra, agora, vive na Casa Branca, o palácio de governo mais importante do mundo. Os Estados Unidos da América nunca mais serão os mesmos. O mundo nunca mais será o mesmo. Os negros nunca mais serão os mesmos. O sentimento de possibilidades derruba barreiras internas, descortina o futuro, convida a um novo olhar para a própria vida, nos leva do devaneio ao sonho. Agora, tudo é possível.

escrito na noite de 20 de janeiro de 2009



Escrito por Tania Regina às 12h50
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Conte sua história de São Paulo

Tania Regina

 

Eu morava a 100 metros da praça da Sé, na rua da Glória, enfrente ao

Paulistano da Glória, uma gafieira de muita fama no passado, e ao lado de

um colégio de freiras, o São José, onde estudei o curso primário e que resiste bravamente até hoje, embora tenha deixado de ser só para meninas.

 

Ali eu cresci, vi os trilhos do bonde serem arrancados do asfalto; a prisão

do bandido da luz vermelha; a chegada da iluminação com cara de Oriente; a implosão do primeiro prédio, o Mendes Caldeira, que trouxe no bojo a

unificação das praças Sé e Clóvis.

 

Minha mãe, dona de uma salão de beleza especializado em cabelo carapinha, o Salão Mocambo, atendia nossos parentes (que sempre penduravam a conta, apesar da placa indicando "fiado só amanhã" no espelho da bancada) e as "moças" que trabalhavam na gafieira. Ela dava um duro danado, em pé até altas horas fazendo penteados que faziam sucesso na época: ninho, mechas. Minha mãe fazia perucas também. E não demorou precisou de óculos para dar conta do serviço.

 

Em tempos de vacas magras, para aumentar a clientela, minha mãe nos mandava - eu, minha irmã Rute e uma moça mais velha, que morava com a gente, a Else - entregar folhetos do salão na Igreja Santa Cruz, na praça da Liberdade.

 

Não, não ficávamos fazendo propaganda do salão junto aos fiéis. É que toda segunda-feira à noite, os negros de São Paulo - homens e mulheres – se reuniam no entorno da igreja para trocar idéias, saber das festas, era farta a distribuição de circular de bailes, "tirar linha", flertar...

 

Nós adorávamos quando minha mãe nos mandava lá. Melhor que isso, só as sextas-feiras pelos lados da rua Direita, viaduto do Chá, rua Barão de Itapetininga, ali no Mappim, Galeria Nova Barão. Os moços da sexta-feira eram muito mais bonitos, arrumados, que os da segunda, e a paquera... muito maior. Só que não tinha jeito: só íamos lá escondido e rapidinho.

 

Na segunda, minha mãe marcava horário para a gente voltar. Na sexta, não tinha acordo. "Moça de família não pode frequentar" - alertavam meus primos. Sempre que eles nos encontravam por lá, nos levavam para casa e falavam para minha mãe: "Tia, não deixe elas irem lá!"

 

Depois de uma boa bronca, a gente esperava minha mãe esquecer e dava outra escapadela.

 

Bons tempos aqueles.

 

Tania Regina Pinto tem muita saudade desse tempo em que andávamos na rua sem medo de assalto, em que era possível reproduzir o "footing" das cidades do interior na nossa metrópole. E escreveu esta crônica em julho de 2006 

 

Publicada no livro "Conte sua história de São Paulo"



Escrito por taniaepedro às 09h12
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É difícil ser negro - Hamilton Cardoso

  O Hamilton escreveu este texto em 1977. Ele foi o meu veterano quando entrei na faculdade. Foi meu amigo, minha inspiração...

Sinto saudade. Ele partiu e ao publicar seu artigo - escrito no auge da nossa militância no Movimento Negro - eu o reverencio e envio amor,

pelas ondas do Universo, ao seu coração.

 

 Hoje em dia é duro ser negro. Aliás, ninguém no Brasil é negro, todo mundo é brasileiro, ao menos até a hora de ser discriminado. Dançar samba, fazer macumba, roubar, matar, ser baiano, cagar num lugar que não seja o meio, principalmente, tudo é coisa de negro (ou porque precisa ou porque é tradição ou, ainda, porque a sociedade assim definiu).  Mas a gente se esforça. Mas a gente é forçado porque na hora de ser discriminado, a pele preta da cara, o nariz chato, o beiço grande são o "urubu", o "macaco", na cabeça do branco.

Se a gente é bom e se comporta, alma branca. Se é ruim, o sanguinário Idi Amim. A imagem negra do branco, sempre na cabeça de cabelos lisos, na cabeça de cabelo duro, na mente brasileira. A gente é sempre julgado dos dois lados, direito-esquerdo, quem tá do lado de lá e do lado de cá.

Ser negro é difícil. A gente é colocado numa caixa, é moldado. A caixa é aberta e a gente sai (ou tiram a gente de lá de dentro). Aí, todo mundo pensa que a gente nasceu dentro da caixa. Todo mundo pensa que a gente foi feito junto com a caixa.

Respirar o vento poluído de fora da caixa não é fácil. É duro. Aí a gente descobre que tem pernas, braços, cabeça, cabelo duro, tudo preto, tudo negro. A gente arranca tudo do lugar e mistura no corpo. Merda! Todo mundo olha a gente e pensa que a gente é bicho. Eles esperam que a gente saia do quadrado da caixa! A gente sai como pode. Uns como eles, outros quadrados e outros como eram antes de entrar. Aqueles que saem como eles querem são condecorados (condenados): medalhas de prata, medalhas de ouro, medalhas de lata. Isto para a gente descobrir que é diferente do resto, melhor. Para descobrir não, para acreditar. Tem gente que acredita e sai dando medalhada na cabeça de todo mundo. É ouro! É prata! É lata! É tudo!

Soul, samba, macumba. Tudo é errado. Ou é coisa de nós gringos, ou é coisa de nós não. Eles dizem que a gente está-se destruindo. A gente destruído durante tanto tempo não tem o direito nem de se destruir, ou destruir o que resta da gente. Tirar uma casquinha de quem não tem mais casca, escalpelar a cabeça da gente mesmo. Esta cabeça (pra eles) burra, inteligente (pra nós), no alto deste pescoço preto.

Destruir eles? Nem pensar. Isto seria anti-humano, a-cristão, irracional.

Igualar? Impossível. Não se pode igualar o que não é diferente nem desigual.

É fogo! Ser quente pra mulher loura, fiel para a mulher negra, infiel para o homem negro, universal para o homem branco, mulata para o homem loiro, nega para todos os negros, exótica para o estrangeiro, fiel para o homem negro, doméstica para a mulher branca, doméstica para o homem negro, e tudo isto passivamente. Ser o que, afinal?

É duro ser negro. É difícil ser brasileiro. Brasileiro é coisa fina subdesenvolvida. Europeu de pele negra? Africano de pele branca? Exótico racional? É difícil ser negro.

É duro porque é preciso ser gente (além de ser obrigado). É duro ser gente  porque gente vive e respira no meio de gente. Mas gente é... sonho pop. Gente fina é outra coisa. Mas como ser pop se negro não pode nem é pop? Ser... o que?

É difícil ser negro. No Brasil é fácil nascer de pele preta. É fácil fazer macumba, ser rei do futebol, cantar samba ou ser quente na cama. É fácil ir para a praia deixar a pele mais escura, deixar o cabelo duro, black power. É fácil ter uma mãe negra, ama seca ou seca mãe. O duro, o difícil, é ser negro.

Hamilton Bernardes Cardoso, 1977



Escrito por taniaepedro às 09h09
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Morre lentamente...

Pablo Neruda

 

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não

encontra graça em si mesmo.

 

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.

 

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os

dias os mesmos trajetos.

 

Morre lentamente quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova

cor ou não conversa com quem não conhece.

 

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

 

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco

e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções,

justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos,

corações aos tropeços e sentimentos.

 

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca

o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite, pelo

menos uma vez, fugir dos conselhos sensatos.

 

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva

incessante.

 

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta

sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre

algo que sabe.

 

Morre lentamente..

 



Escrito por taniaepedro às 09h06
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Para quem quer ficar junto

Artur da Távola

 

“Aos casados há muito tempo, aos que não casaram, aos que vão casar, aos que acabaram de casar, aos que pensam em se separar... aos que acabaram de se separar, aos que pensam em voltar... Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga.

 

Tudo o que todos querem é amar. Encontrar alguém que faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado. Tem algum médico aí?

 

Depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que? O amor. Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos, o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo.

 

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudade, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus. A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver qualquer garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom da voz nos fragiliza e, de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.

 

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto tem que haver muito mais que amor e, às vezes, nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios.

 

Alguma paciência... Amor, só, não basta! Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber levar. Amar, só, é pouco.

 

Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta apenas amar. Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo para cada um. Tem que haver confiança.

 

Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, “solamente”, não basta. Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, falta discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

 

O amor é grande mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta. Um bom amor aos que já têm! Um bom encontro aos que procuram! E felicidade a todos nós!

 

Artur da Távola



Escrito por taniaepedro às 08h57
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